sexta-feira, 10 de junho de 2011

As vivências da ribeira

Eu moro em Machico
mesmo perto da ribeira
onde cresci e vivi
e por cá fiz brincadeira

na minha infância
tudo era bem diferente
pois não havia nada
e vivamos contentes

nessa altura tudo era diferente
toda a gente ia a ribeira
pois a roupa era lavada
não havia água na torneira

as mulheres iam a ribeira
para a roupa lavar
onde muito conversavam
e ponham a roupa a corar

cedo iam para a ribeira
para apanhar o lugar
pois havia os lavadores
para a roupa lavar

algumas mais arrogantes
tudo tinham aprumado
faziam da ribeira
como um canto privado

arranjavam os poços
com lavadores em redor
tudo era arranjado
tudo queria o melhor

e depois o calhau
para a roupa corar
tudo era concorrência
tinham que cedo chegar

mas se houvesse alguém
que ocupasse o lugar
logo que o dono chegasse
tinha de se levantar

depois dava brigas
e as grandes confusões
muitas vezes sem necessidade
dava-se mal criações

mas quando chovia muito
tudo ficava desfeito
vinha as cheias levava tudo
tinham que dar novo jeito

tinham que voltar pedras
e lavadouros procurar
abrir pequenos regos
para a água poder passar

era uma luta constante
dia e noite na ribeira
para poder lavar a roupa
dava para a semana inteira

havia um dia por semana
que todos iam lavar
embora fossem outros dias
mas era com mais gavar

durante o dia iam molhar
a roupa que estava a corar
para mais tarde torcer
ir troçar e por a enxugar

e metiam no anil
para a roupa clarear
ficava mais azulada
para então enxugar

depois havia um dia
que era de engomar
com o ferro de carvão
as brasas tinham de assoprar

roupa com muitos remendos
tudo era bem lavada
ficava branca de neve
depois de bem esfregada

se a roupa fosse mal lavada
tudo era relatado
então toda a gente
tinham o máximo cuidado

as fraldas eram cueiros
de lençóis que ia ficando
ou outras roupas velhas
que as pessoas iam rasgando

e assim foram vivendo
pois era assim toda a gente
também havia as lavandeiras
que lavavam a muita gente

passavam dias inteiros
e talvez toda a semana
para lavar para as senhoras
que de finas tinham fama

ou se estavam doentes
também não podiam lavar
ir de giga para a ribeira
e ter de se joelhar

e havia sempre alguém
que muito se sujeitava
para ganhar um vintém
de qualquer maneira trabalhava

também havia os senhores
que as vacas iam pastar
pois também havia erva
para o gado sustentar

era cabras, vacas galinhas e patos
de tudo ia para a ribeira
pois os patos ponham os ovos
que até dava para a brincadeira

os pequenos iam brincar
e depois iam procurar
os ovos dos patos
para levar para fritar

quando encontrávamos o ovo
um ovo era uma alegria
o ovo era grande e branco
que fazíamos uma folia

era no meio da água
que muitas vezes se encontrava
os ovos dos patos
que os pequenos procuravam

enquanto as mães lavavam
nós íamos brincar
e fazíamos casinhas
com ervas a enfeitar

as pedras eram os filhos
tudo tinha uma razão
era a simplicidade
e alegria no coração

ou então íamos as canas
para a ribeira íamos chupar
no meio da água corrente
os choupos íamos deitar

ainda estou lembrada
duma cheia que deu
foi um grande aluvião
que Machico estremeceu

rebentou casas e pontes
tudo veio para a ribeira
rebentou uma mercearia
tudo ficou em lixeira

foi na casa dos guardas
a mercearia do Daniel
a água levou tudo
das massas ao papel

depois de muitos dias
e de parar de chover
fomos todos para a ribeira
era uma alegria ver

fomos procurar borracha
e também lápis de pau
fizemos uma festa
pois o tempo era mau

ninguém tinha para dar
todo o tostão era poupado
não é como neste tempo
que há tudo por todo o lado

quando chovia muito
tínhamos das passadas saltar
muitas vezes caiamos
tínhamos da roupa mudar

ficávamos todas molhadas
era uma complicação
pois a roupa era pouca
e não havia um tostão

no verão era mais fácil
da ribeira atravessar
no inverno água dava por o joelho
e podia nos levar

tínhamos uma tia
no outro lado da ribeira
e também fazenda
o que era uma canseira

e a maquina do leite
também era no outro lado
quando rebentou a ponte
tudo ficou enrascado

mas muitas vezes
a minha avó mandava
ir a maquina com o leite
e a ribeira atravessava

o caminho da ribeira
era uma estrada esteitinha
quase sempre caia os carros
pois protecção não havia

caia os carros para a ribeira
lá corria a pequenada
era sempre uma novidade
corríamos com velocidade

as vezes era as quebradas
quando chovia bastante
ficava apertadinho
pois tudo era distante

mas voltando um pouco atrás
quanto as vacas na ribeira
elas tinham o nome
e também um coleira

umas eram janeiras,morenas
laranjas pretas zarolhas
eram vários os homens
um deles era o Aleluia

andavam de bordão
para as vacas enxutar
algumas pisavam a roupa
que brigas vinham a dar

 também havia agrião
que todos iam apanhar
muitas vezes para a sopa
para os filhos sustentar

e também para espremer
para fazer infusão
havia gente doente
tuberculosa do pulmão

então o agrião
era um remédio indicado
depois juntavam,mel e aguardente
e tinham bom resultado

agora tudo mudou
já ninguém vai a ribeira
tudo tem maquina de lavar
já acabou a canseira


outros tempos outras alegrias
há de tudo para viver
contando isto a mocidade
eles não querem saber

parece ser mentira
como tudo acontecia
tristes dos nossos pais e avós
que sofriam em demasia

estou feliz por este tempo
e pela maneira de viver
obrigado ao Jesus
por tudo isto acontecer

fica aqui tudo escrito
pois isto é realidade
foi no nosso Machico
que agora é cidade

depois de tantos anos
e depois de muito trabalho
que alguém foi construindo
para nosso bem e regalo

Lídia Aveiro

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