Eu moro em Machico
mesmo perto da ribeira
onde cresci e vivi
e por cá fiz brincadeira
na minha infância
tudo era bem diferente
pois não havia nada
e vivamos contentes
nessa altura tudo era diferente
toda a gente ia a ribeira
pois a roupa era lavada
não havia água na torneira
as mulheres iam a ribeira
para a roupa lavar
onde muito conversavam
e ponham a roupa a corar
cedo iam para a ribeira
para apanhar o lugar
pois havia os lavadores
para a roupa lavar
algumas mais arrogantes
tudo tinham aprumado
faziam da ribeira
como um canto privado
arranjavam os poços
com lavadores em redor
tudo era arranjado
tudo queria o melhor
e depois o calhau
para a roupa corar
tudo era concorrência
tinham que cedo chegar
mas se houvesse alguém
que ocupasse o lugar
logo que o dono chegasse
tinha de se levantar
depois dava brigas
e as grandes confusões
muitas vezes sem necessidade
dava-se mal criações
mas quando chovia muito
tudo ficava desfeito
vinha as cheias levava tudo
tinham que dar novo jeito
tinham que voltar pedras
e lavadouros procurar
abrir pequenos regos
para a água poder passar
era uma luta constante
dia e noite na ribeira
para poder lavar a roupa
dava para a semana inteira
havia um dia por semana
que todos iam lavar
embora fossem outros dias
mas era com mais gavar
durante o dia iam molhar
a roupa que estava a corar
para mais tarde torcer
ir troçar e por a enxugar
e metiam no anil
para a roupa clarear
ficava mais azulada
para então enxugar
depois havia um dia
que era de engomar
com o ferro de carvão
as brasas tinham de assoprar
roupa com muitos remendos
tudo era bem lavada
ficava branca de neve
depois de bem esfregada
se a roupa fosse mal lavada
tudo era relatado
então toda a gente
tinham o máximo cuidado
as fraldas eram cueiros
de lençóis que ia ficando
ou outras roupas velhas
que as pessoas iam rasgando
e assim foram vivendo
pois era assim toda a gente
também havia as lavandeiras
que lavavam a muita gente
passavam dias inteiros
e talvez toda a semana
para lavar para as senhoras
que de finas tinham fama
ou se estavam doentes
também não podiam lavar
ir de giga para a ribeira
e ter de se joelhar
e havia sempre alguém
que muito se sujeitava
para ganhar um vintém
de qualquer maneira trabalhava
também havia os senhores
que as vacas iam pastar
pois também havia erva
para o gado sustentar
era cabras, vacas galinhas e patos
de tudo ia para a ribeira
pois os patos ponham os ovos
que até dava para a brincadeira
os pequenos iam brincar
e depois iam procurar
os ovos dos patos
para levar para fritar
quando encontrávamos o ovo
um ovo era uma alegria
o ovo era grande e branco
que fazíamos uma folia
era no meio da água
que muitas vezes se encontrava
os ovos dos patos
que os pequenos procuravam
enquanto as mães lavavam
nós íamos brincar
e fazíamos casinhas
com ervas a enfeitar
as pedras eram os filhos
tudo tinha uma razão
era a simplicidade
e alegria no coração
ou então íamos as canas
para a ribeira íamos chupar
no meio da água corrente
os choupos íamos deitar
ainda estou lembrada
duma cheia que deu
foi um grande aluvião
que Machico estremeceu
rebentou casas e pontes
tudo veio para a ribeira
rebentou uma mercearia
tudo ficou em lixeira
foi na casa dos guardas
a mercearia do Daniel
a água levou tudo
das massas ao papel
depois de muitos dias
e de parar de chover
fomos todos para a ribeira
era uma alegria ver
fomos procurar borracha
e também lápis de pau
fizemos uma festa
pois o tempo era mau
ninguém tinha para dar
todo o tostão era poupado
não é como neste tempo
que há tudo por todo o lado
quando chovia muito
tínhamos das passadas saltar
muitas vezes caiamos
tínhamos da roupa mudar
ficávamos todas molhadas
era uma complicação
pois a roupa era pouca
e não havia um tostão
no verão era mais fácil
da ribeira atravessar
no inverno água dava por o joelho
e podia nos levar
tínhamos uma tia
no outro lado da ribeira
e também fazenda
o que era uma canseira
e a maquina do leite
também era no outro lado
quando rebentou a ponte
tudo ficou enrascado
mas muitas vezes
a minha avó mandava
ir a maquina com o leite
e a ribeira atravessava
o caminho da ribeira
era uma estrada esteitinha
quase sempre caia os carros
pois protecção não havia
caia os carros para a ribeira
lá corria a pequenada
era sempre uma novidade
corríamos com velocidade
as vezes era as quebradas
quando chovia bastante
ficava apertadinho
pois tudo era distante
mas voltando um pouco atrás
quanto as vacas na ribeira
elas tinham o nome
e também um coleira
umas eram janeiras,morenas
laranjas pretas zarolhas
eram vários os homens
um deles era o Aleluia
andavam de bordão
para as vacas enxutar
algumas pisavam a roupa
que brigas vinham a dar
também havia agrião
que todos iam apanhar
muitas vezes para a sopa
para os filhos sustentar
e também para espremer
para fazer infusão
havia gente doente
tuberculosa do pulmão
então o agrião
era um remédio indicado
depois juntavam,mel e aguardente
e tinham bom resultado
agora tudo mudou
já ninguém vai a ribeira
tudo tem maquina de lavar
já acabou a canseira
outros tempos outras alegrias
há de tudo para viver
contando isto a mocidade
eles não querem saber
parece ser mentira
como tudo acontecia
tristes dos nossos pais e avós
que sofriam em demasia
estou feliz por este tempo
e pela maneira de viver
obrigado ao Jesus
por tudo isto acontecer
fica aqui tudo escrito
pois isto é realidade
foi no nosso Machico
que agora é cidade
depois de tantos anos
e depois de muito trabalho
que alguém foi construindo
para nosso bem e regalo
Lídia Aveiro
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